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  • Jornal das Oficinas

O Aftermarket está eletrizante!

Atualizado: Abr 1

Na edição anterior do VISU Aftermarket, mostrámos uma perspetiva diferente e normalmente não abordada das viaturas elétricas a bateria, no que diz respeito ao seu impacto ambiental e à dependência de matérias-primas para a sua construção e carregamento. A indústria automóvel está a transformar-se de uma indústria eletromecânica para uma indústria fortemente eletrizada, com software e dados a fazerem parte do seu core business. Tal mudança, obviamente terá impacto e consequências em todo o Aftermarket.



Na Europa, o crescimento das vendas de VEBs e Híbridos tem sido exponencial, tendo o último ano sido fortemente marcado por este crescimento, especialmente no último trimestre. Em contra ciclo, a queda de vendas de viaturas movidas a diesel, tem sido vertiginosa. Conforme Quadro I, a quota de mercado de vendas de viaturas novas a diesel em 2020, regista 28%, e o Quadro II mostra-nos o crescimento de VEBs e HIB na Europa em 2020, comparativamente ao ano anterior.


O maior produtor de automóveis do mundo é a China (Quadro III) e este país tem uma aposta estratégica na tecnologia elétrica para viaturas (ligeiras e pesadas).


Em Portugal, o mercado “elétrico” também começa a fazer-se notar, conforme o Quadro IV nos mostra, as vendas de viaturas novas em dezembro último.



Se apenas considerarmos os VEBs, temos um número ainda pouco significativo. Mas se adi-cionarmos os Híbridos Elétricos, as vendas nesse mês já mostram uns interessantes 37% do total.


PLAYERS (FABRICANTES DE MOBILIDADE)


Não existe fabricante de automóveis que não tenha na sua estratégia o incremento exponencial da oferta de VEBs nos próximos tempos. Marcas como a Volvo, Jaguar e Bentley foram ainda mais drásticas, ao anunciarem que em 2030 terão unicamente oferta elétrica. Consta-se, que a Mini anunciará o mesmo em breve.

Aos tradicionais fabricantes de automóveis, teremos nos próximos anos novos players como a Apple, provavelmente a Google, private brands vindos da distribuição alimentar como o LIDL e muitas marcas chinesas, que hoje nos são desconhecidas, mas que farão parte da Indústria da Mobilidade muito em breve, e que terão obviamente impacto no aftermarket.

Provavelmente nunca ouviu falar da marca NIO. Pois esta marca chinesa premium, lançou um automóvel elétrico (NIO ET7) que pretende concorrer com a Tesla e com a Porsche. Tem 652 CV de potência, uma autonomia anunciada superior a 1.000 Km e um sistema de “Battery Swap” em substituição do tradicional carregamento. Chegam à Europa durante este ano e pretendem entrar em mercados onde os VEBs têm uma grande recetividade por parte dos consumidores.


TECNOLOGIAS


A tecnologia elétrica de propulsão de viaturas está hoje assente nas baterias de iões de lítio. Este enfoque pretende escala na produção, a fim de reduzir custos, e pretende também redução dos custos no desenvolvimento da otimização da tecnologia (aumento da capacidade de carga, redução do tempo de carregamento, redução do peso e da dimensão).

Mas outras tecnologias, como a do hidrogénio, não estão paradas no seu desenvolvimento e isto é um indicador que o elétrico sendo o futuro, não será obrigatoriamente só com a tecnologia de iões de lítio. Em 2014, surgiu a notícia do desenvolvimento das biobaterias. A mais veiculada nos meios de comunicação social foi a bateria de açúcar. Os pontos fortes apresentados por este tipo de bateria eram: serem mais baratas, terem maior duração, terem maior capacidade de armazenamento e serem recicláveis (mais amigas do ambiente).


O ponto fraco à data era só poderem ser usadas em pequenos equipamentos, como smartphones ou computadores portáteis. Nada que o tempo não tenha mostrado ser possível alterar com as baterias de iões de lítio que conhecemos hoje. Mas marcas como a Audi e a Porsche já vieram defender os eFuel, ou seja, os combustíveis sintéticos que permitem que um motor de combustão interna consiga emissões zero.

Fica claro, pelo anterior, que seguramente teremos muitas tecnologias propulsoras em desenvolvimento nas próximas décadas que estarão sujeitas ao escrutínio do consumidor, mas também diretamente relacionadas com legislação e interesses geopolíticos.


PLAYERS (DISTRIBUIDORES DE PEÇAS)

Os distribuidores de peças automóvel são uma parte passiva do desenvolvimento tecnológico das viaturas e dos conceitos de distribuição que os fabricantes de automóveis/mobilidade, vierem a implementar nos próximos anos. O Grupo Stellantis informou a indústria na sua apresentação, que pretende controlar a cadeia de distribuição das peças “core”, das suas viaturas elétricas. Esta é uma alteração profunda no modelo de negócio do fabricante, que impacta fortemente o aftermarket, nomeadamente o IAM.

Segundo o estudo realizado pela BCG/ Wolk Consulting em parceria com a CLEPA, a despesa de manutenção de uma viatura elétrica é inferior em 20% à de uma viatura de combustão interna. Se olharmos mais em detalhe, este estudo mostra-nos que em termos de manutenção e reparação, a redução de despesa cifra-se nos 50%! Somente nos pneus existirá um acréscimo de despesa na ordem dos 20%. Este aumento na manutenção por via dos pneus, acontece pelo aumento do peso das viaturas VEBs em virtude das baterias e, graças ao forte binário de arranque e potência que estas viaturas apresentam. Em contraponto ao anterior, as peças que estão a ser vendidas para as viaturas mais modernas, são mais caras em virtude da complexidade dos sistemas de controle através de sensores e atuadores. Na iluminação, através da tecnologia LED, estima-se um acréscimo de preços entre os 5% a 10%.

O sistema ADAS – Advanced Driver Assistance System (Quadro V) é um bom exemplo de como as viaturas de hoje estão repletas de sensores e atuadores altamente sofisticados e complexos.



Perante o anterior, podemos resumir o negócio de distribuição de peças da seguinte forma: O Distribuidor tem de estar preparado para trabalhar com qual- quer tecnologia (elétrica a bateria, hidrogénio, eFuel,...); Se o fabricante de automóveis controlar a cadeia de distribuição de peças “core” dos VEBs, então será necessário encontrar soluções alternativas no mercado in- terno e externo;

  • As peças reutilizáveis podem vir a ser uma solução para o fornecimento de peças novas controlado (bloqueado) pelos fabricantes de automóveis;

  • Se hoje o “Made in China” ainda é um fator de resistência à compra de uma determinada peça por alguns, com a tendência da entrada de fabricantes chineses de automóveis na Europa, é melhor começar a mudar este mindset...

  • Com o mercado de manutenção e reparação a encolher graças ao aumento de viaturas elétricas em circulação, os distribuidores de peças necessitam encontrar outros produtos e outras soluções para complementar o seu negócio;

  • Se existem produtos, que apesar de altamente técnicos, são fonte de rendimento como é o caso dos sensores e atuadores, os distribuidores de peças necessitam es- tar à altura de os poder trabalhar (suporte ao diagnóstico da avaria na viatura; identificação da peça; entrega da peça em condições; venda/aluguer de equipamento de instalação/calibração; suporte técnico à instalação/calibração da peça).


PLAYERS (OFICINAS AUTOMÓVEL)


As oficinas independentes continuam muito focadas nas viaturas tradicionais de combustão interna, esquecendo que existe já hoje um conjunto de tecnologias que necessitam de assistência e que estão a ser procuradas fora das redes de concessionários das marcas, não só pelos clientes finais, mas também pelas gestoras de frota. Existe um parque interessante de VEBs, Híbridos e mild-hybrid, principalmente em algumas zonas do nosso país, que deve merecer a atenção de alguns gestores oficinais. As Oficinas Independentes podem estar seguras de que os VEBs e os HIB entrarão pelas suas portas dentro. Se a tecnologia vingar, o aumento do parque assim o obrigará. Se a tecnologia não vingar por qualquer razão, a depreciação do valor da viatura usada, levará à procura de uma solução mais económica na manutenção, e sabemos todos que a procura imediata será nas Oficinas Independentes.


Dito assim, não é uma questão de SE, mas sim uma questão de QUANDO. Muitas oficinas consideram os VEBs, e até os HIB, com desinteresse e até alguma desconfiança, porque afinal existem por ali tensões elétricas que matam, se não existirem bons procedimentos de trabalho, ferramentas e cuidados acrescidos com o manuseamento. Mas tudo isto é facilmente ultrapassável com formação e com a aquisição dos equipamentos necessários. Convém não esquecer que a estas viaturas está associada tecnologia de ponta, que pode muito bem fazer a diferenciação de qualquer oficina ao estar capacitado para a assistir.


CONCLUSÃO


Para que os VEBs que conhecemos hoje tenham sucesso, é absolutamente necessário que aconteçam 3 fatores:

Aumento da autonomia atual; Redução drástica do tempo de carregamento (média atual: 45 min. para carregar 70% da bateria) Aumento exponencial do no de postos de carregamento.

Mesmo que o acima não esteja ultrapassado, seguramente teremos VEBs no mercado, nem que seja para os fabricantes conseguirem cumprir as suas metas anuais de CO2 sem serem multados por isso. Mas o aftermarket está eletrizante por causa da eletrificação das viaturas, pela alteração dos modelos de negócio de alguns players, pela chegada de novos e desconhecidos players, e, ainda, pela necessidade absoluta de estarmos muito bem preparados para qualquer futuro que tenhamos pela frente.

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