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  • Jornal das Oficinas

"A indústria Automóvel enganou-nos mais uma vez"

Atualizado: Mar 1

Este pode ser o título de um jornal em 2035!


Quem está associado à indústria automóvel sabe, que a atual tecnologia das viaturas elétricas a bateria (VEBs), não é de forma alguma do agrado da grande maioria dos fabricantes. A Indústria está a desenvolver, promover e vender estes novos produtos, acima de tudo, por decreto legislativo e por gestão de coimas ao não atingimento de quotas obrigatórias nomeadamente no espaço da União Europeia.

Como qualquer indústria que vive das vendas, os departamentos de marketing e vendas, asso-ciam estes produtos (Híbridos e VEBs) à redução da pegada ambiental, à redução do CO2 e ao ser “Amigo do Ambiente”. Esta estratégia de marketing e vendas está a ser confundida em como a indústria acredita mesmo, que estamos a fazer algo pelo ambiente.


E, é aqui que me parece existir um potencial choque, quando daqui a 15 ou 20 anos, se verificar que a poluição só mudou de sítio geográfico (das zonas mais povoadas e ricas, para zonas menos povoadas e pobres) mas, como a poluição não conhece fronteiras, o planeta como um todo não beneficiou em nada destas decisões. Potencialmente, muito pelo contrário... Será nesta altura, que a indústria automóvel (que nessa altura será seguramente muito diferente daquela que conhecemos hoje) poderá ser acusada de ter enganado os seus clientes e o mundo, com as suas “promessas”. Tal, seria de uma enorme injustiça.

O Planeta terra está doente

A maioria das pessoas já entendeu que o planeta está doente (Quadro I) e que algo tem de ser feito, rapidamente.



Segundo a União Europeia, se nada fizermos até lá, em 2050 necessitaremos de 3 planetas Terra em recursos. O crescimento brutal da população humana no planeta, que duplicou nos últimos 45 anos (Quadro II), o aumento do poder de compra de uma parte dela em bens de consumo e de luxo, provocam um impacto brutal em termos ambientais.



Se as estimativas forem confirmadas, nos próximos 30 anos habitarão no planeta mais 2.000 milhões de pessoas que hoje. Para vivermos tantos com tão poucos recursos, não chega mudar de tecnologias, teremos de mudar os nossos estilos de vida, e... isso é muito difícil. A quantidade de emissões de CO2 para a atmosfera, não para de crescer (Quadro III) e esta é uma situação perfeitamente insustentável.



As alterações climáticas não param e, cada vez mais, o planeta torna-se menos habitável ao ser humano. Seguramente muito tem de ser feito para inverter esta curva crescente. Mas serão os VEBs, a solução para todos os males, dentro do âmbito dos transportes? Iremos resolver todos os problemas de impacto ambiental com esta solução?

Impacto da atual tecnologIa elétrIca motora no ambIente


Ao longo dos últimos anos, os fabricantes de automóveis implementaram uma estratégia focada na venda de Híbridos e não tanto em VEBs. Esta estratégia está assente maioritariamente em 2 vertentes: a transição pacífica da tecnologia motor de combustão in- terna para VEB, e, aproveitamento dos benefícios fiscais que muitos governos europeus ofereceram a este tipo de viaturas. Convém referir que o anterior foi realizado com a concordância e entusiasmo das instituições regulatórias e políticas da União Europeia.

No entanto, algo não correu bem nesta estratégia, conforme mostra o gráfico do Quadro IV, que nos indica uma inversão da tendência de redução de CO2 a partir do ano 2016.



O custo do “green status“

É do desconhecimento da maioria, mesmo daqueles que estão próximos da indústria automóvel, que a tecnologia dos VEBs é uma enorme sorvedora de matérias primas e muito especificamente de metais raros. Em alguns casos, muito raros. Apenas para referir alguns que serão novidade para a grande maioria de quem lê estas linhas: Európio, Samário, Gadolínio, Cério e Neodímio. Este último, é um metal-pesado e muito utilizado na construção dos motores elétricos dos VEBs. Todos estes metais classificam-se numa série química denominada Terra-rara. O Quadro V mostra-nos em que partes do planeta está a produção e reservas destes metais super raros.


Não existem VEBs sem baterias e, até ao momento, a tecnologia predominante é a que está assente no lítio. No Quadro VI mostramos onde estão as reservas de lítio no mundo.



A maior reserva de lítio do mundo situa-se na Bolívia, sendo “refinada” por uma fábrica chinesa situada no local, já que a Bolívia não possui tecnologia de tratamento deste metal. O grupo chinês Suzhou TA&A Ultra Clean Energy CO Ltd., está a financiar o crescimento de uma das fábricas brasileiras de lítio, pertencente ao grupo holandês AMG.


A fábrica aumentará a produção entre 30% a 45% e em troca, o grupo chinês receberá no mínimo 200.000 toneladas deste metal em 5 anos. Mas estas baterias também necessitam de cobalto, extraído principalmente na República Democrática do Congo e grafite, e que segundo a Momentum Institute, a China possui 70% das reservas mundiais.

Segundo ainda o Momentum Institute, um VEB incorpora em média 80kg de cobre, o que representa quatro vezes mais que numa viatura de combustão interna. A adicionar a este aumento de consumo de cobre por viatura, temos o aumento exponencial na interligação dos vários carregadores espalhados por esta Europa e mundo fora. O Quadro VII mostra-nos a estimativa de procura de cobre até 2035, onde já se nota hoje um deficit entre a procura e a oferta de matéria-prima produzida em mina.



Este deficit está a crescer de forma exponencial, estimando alguns especialistas que mesmo reciclando cobre, possamos encontrar um colapso de fornecimento entre 2035 e 2040. Poderemos ter a mesma procura de cobre em 30 anos, que tivemos em mais de 150, desde a Primeira Revolução Industrial.

RecIclagem

Enquanto a extração de metais em mina for mais barata que a reciclagem, a indústria não estará interessada na matéria-prima reciclada. O lucro imediato, ainda está à frente do benefício ambiental. Por outro lado, a indústria de reciclagem mostra dificuldades em reciclar alguns produtos como as baterias de lítio e ignorância na reciclagem de metais como o Índio, Gálio, Germânio, Selénio, Tântalo e muitos outros.


Existe por isso um longo caminho tecnológico, industrial, logístico (supply chain), legislativo e de sensibilização ambiental, para que a reciclagem tenha um papel realmente importante na redução da pegada ambiental em geral, e, da nossa indústria em particular. O anterior não quer dizer que aquilo que já hoje estamos a fazer com metais ferrosos, plásticos, vidros, baterias de chumbo... não esteja no bom caminho. Mas a grande questão é que estamos perante um problema gigante a nível global e o que fazemos é pouco. Muito pouco!

A entrada das Green Parts ou Peças Reutilizáveis, no portfólio de oferta à reparação automóvel, será seguramente um caminho, mas estas também têm o seu tempo de desenvolvimento e ocupação de um espaço no mercado, que está ocupado por muitos outros com ofertas de novo ou reconstruído, e estes, praticamente em conjunto, as combatem.

Visão estratégica

Acreditando que as políticas de hoje se manterão num amanhã próximo, tudo leva a crer que a Europa deixará de estar tão dependente do petróleo para a sua mobilidade, mas passará a estar dependente de metais raros e outros, para o fabrico de viaturas e baterias.


Nos últimos anos, já ouvimos em discursos de responsáveis políticos da União Europeia que estavam dispostos a financiar uma ou mais fábricas de baterias para VEBs. Mas servirá proclamar independência ao ter uma fábrica (ou mais) de baterias de lítio no espaço europeu, se estivermos dependentes das matérias-primas para as produzir, que estão fora do Espaço Europeu?

Se o objetivo maior é efetivamente reduzir as emissões de CO2, reduzir o impacto ambiental das nossas indústrias e do nosso estilo de vida, será que esta deslocalização da poluição resolverá realmente alguma coisa? Com tanta necessidade de metais raros que obrigam à mineração dos mesmos, sabendo que esta atividade é altamente poluidora, será este realmente o melhor caminho?

Segundo o Our World Data, o maior poluidor do mundo é a China, com uma fatia de 28%, seguida pelos Estados Unidos com 15%. Isto é dizer que, só estes dois países representam 43% da poluição mundial. Se verificarmos onde estão as principais matérias-primas para a revolução mundial dos VEBs, será bastante improvável uma redução da poluição na China.

Poderíamos ser cínicos e dizer que esse é um problema da China e do seu povo, mas não é, porque a poluição e o Planeta não entendem o conceito de país. Podemos ainda adicionar uma pressão maior nos metais raros, se considerarmos que para a produção de painéis solares e geradores eólicos, estes também são necessários. Segundo o Momentum Institute, um gerador eólico consome uma tonelada de metais raros.

Conclusão

Quando estudamos algumas tendências de forma mais aprofundada, por vezes chegamos à conclusão que estas não fazem muito sentido e porventura até podem ser ilógicas. Este artigo não pretende criar fações a favor ou contra uma determinada tecnologia, mas tão somente informar o que está por trás da mesma.

Como gestores temos de estar muito atentos, porque quando estamos a falar de modas, elas podem mudar muito rapidamente, e isso impacta e de que forma, os nossos negócios.

Veja-se o que está a acontecer com os híbridos que de um dia para o outro passaram de solução para quase abate à tecnologia. Como Humanos a habitar num planeta doente, que se pode transformar irremediavelmente doente dentro de 30 anos, temos a obrigação de tudo fazer para o deixar habitável aos nossos descendentes...

Se quer saber como tudo isto impacta o Aftermarket das próximas décadas, leia a próxima edição do VISU Aftermarket. Contamos consigo!

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